Sobre

O Quim Barreiros

Ainda criança, Quim Barreiros bebeu os ensinamentos musicais da grande tradição minhota: os viras, os malhões, as chulas e canas-verdes.

Na adolescência viajou por Portugal inteiro, já a tocar acordeão em ranchos folclóricos com os quais tomou contacto com muitos outros géneros do nosso país. No início da idade adulta, fixou-se em Lisboa, onde frequentou as casas de Fado e começou paralelamente a inscrever o seu nome em dezenas e dezenas de gravações – essencialmente de música tradicional portuguesa mas não só.

E com a descoberta de uma voz própria como cantor, em meados dos anos 70, e a sua vocação para as rimas brejeiras e divertidas – com uma passagem pelo canto de intervenção ao contrário –, estava aberto o caminho a um dos percursos mais sui generis e originais da música portuguesa dos últimos quarenta anos. Aqui ficam as histórias que fizeram de Quim Barreiros... o Quim Barreiros tal como o conhecemos hoje.

Nascido na tradição

Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros nasceu a 19 de Junho de 1947 em Vila Praia de Âncora (no Minho), mesmo em frente do Oceano Atlântico: o imenso mar que, então já com o nome artístico de Quim Barreiros, iria atravessar várias vezes para animar com a sua música as comunidades portuguesas de emigrantes estabelecidas nos Estados Unidos, Canadá, Brasil ou Caraíbas. Filho de Joaquim de Matos Fernandes Barreiros (nascido em S. Paulo, Brasil) e de Margarida de Magalhães de Melo (nascida em Paredes de Viadores, perto de Marco de Canaveses), Quim Barreiros tem duas irmãs mais velhas, Manuela e Rosa, e um irmão mais novo, Cláudio.

A música entrou muito cedo na vida de Quim Barreiros. A mãe não ligava muito, mas o pai tocava acordeão num grupo de baile – o Conjunto Alegria – e em vários ranchos folclóricos. O jovem Joaquim apaixonou-se pela sonoridade dos mesmos instrumentos que o pai tocava e quis aprender a fazer o mesmo. Mas não foi com ele que aprendeu. Quim Barreiros diz que “o pai ensinava à maneira antiga, a lambada” e então foi estudar os princípios do acordeão, com apenas oito anos, junto do sargento-músico, o Sr. Lomba, que ocupava os dias da reforma a ensinar os mais novos. E, curiosamente, não foi acordeão, mas sim bateria, o primeiro instrumento que tocou em público. Quim Barreiros recorda essa aventura que começou quando ele tinha nove anos:

“O baterista que tocava com o meu pai no Conjunto Alegria adoeceu e eu disse ao meu pai que podia substituí-lo. O Conjunto Alegria era muito conhecido na altura aqui no Alto Minho. E eu lá fui tocar bateria, nas festas do Carnaval, que duravam imensas horas e entravam pela noite dentro. Eu às vezes chegava a adormecer atrás da bateria e, então, lá iam o saxofonista ou o trompetista tocar-me aos ouvidos para eu acordar e voltar a tocar”.
Quim Barreiros

Anos depois, na adolescência, Quim Barreiros começou então a tocar acordeão, já ao lado do pai, no Conjunto Alegria: “Tocávamos marchas populares, paso-dobles – que nós ouvíamos aqui da Galiza a tocar e nós íamos de arrasto –, valsas, tangos, boleros...”. E tudo isto ajudou a formar musicalmente Quim Barreiros mas, ainda mais importante do que o reportório do grupo de baile, foi aquele que aprendeu junto dos ranchos folclóricos da região e nos encontros de tocadores de concertina. Diz Quim Barreiros que, “desde muito pequenino que eu acompanhava o meu pai nos ranchos folclóricos em que ele tocava, em Afife, que é a terra de Pedro Homem de Mello, grande poeta e grande conhecedores das tradições musicais da região. Em todas as festas que o Pedro Homem de Mello fazia, no Convento de Cabanas, que era a casa dele, era o meu pai que animava a festa. E aí o meu pai tocava os viras, as chulas, os malhões, toda aquela música antiga que me ficou registada, como eu costumo dizer, no meu computador, na memória. Em criança, a fazer companhia ao meu pai, e depois já a tocar com ele, percorríamos também todas as grandes festas das redondezas: a Senhora de Agonia de Viana do Castelo, as festas de S. Bartolomeu, de Ponte da Barca, de Ponte de Lima, a romaria de S. João d’Arga, etc. E era nestas festas que se juntavam os tocadores de concertina, os cantadores ao desafio, e eu fui metendo isso tudo na minha cabeça”.

Quim Barreiros acabou a quarta classe mas, depois, ficou alguns anos sem estudar. Trabalhou numa lojas de fazendas ante de seguir, mais uma vez, as pisadas do pai e de o ter começado a ajudar numa oficina de bicicletas que o Sr. Joaquim tinha em Vila Praia de Âncora. Esse trabalho deu-lhe conhecimentos de mecânica e um jeito para as máquinas que o ajudaria, mais tarde, a desenvencilhar-se melhor quando começou a estudar electromecânica. A mãe morreu cedo, tinha Quim Barreiros apenas dezasseis anos, acontecimento que iria marcá-lo para o resto da vida. E só retomou estudos depois da morte da mãe, quando – com ajuda de professores particulares – conseguiu concluir o antigo quinto ano dos liceus (actual 9.° Ano), tendo já em vista ingressar na Força Aérea, onde entraria com vinte anos.

Mas, apesar de uma vida dura e difícil, logo na adolescência Quim Barreiros tomou contacto com muitas outras músicas e lugares, chegando a actuar várias vezes no estrangeiro, não com o Conjunto Alegria – que tinha um circuito mais restrito e regional – mas com dois ranchos:

“Aos doze ou treze anos, comecei a tocar acordeão num grupo folclórico dos mais prestigiados do país, o Sta. Marta de Portuzelo. E comecei a tocar de norte a sul de Portugal. E esse contacto com outras gentes, com outros grupos de outras regiões, ao longo de anos e anos, deu-me uma base muito grande de música folclórica e popular de todo o país”.
Quim Barreiros

Um acervo precioso que iria, anos depois, servir-lhe na perfeição para que – já nos anos 70 – a esmagadora maioria dos temas da sua discografia fossem versões em acordeão de temas tradicionais de Portugal inteiro. “E tanto no Grupo Folclórico de Sta. Marta de Portuzelo como no Grupo Folclórico de Afife, com o qual também toquei, viajei por Portugal e também pelo estrangeiro: Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, onde havia grandes festivais folclóricos nós estávamos lá.” Quim Barreiros integrou estes dois grupos – paralelamente ao Conjunto Alegria – entre os doze e os vinte anos, quando vai para Lisboa fazer a tropa. E, entre as inúmeras memórias musicais e de vida que guarda desse tempos, há uma que viria a ser premonitória de algo que lhe iria acontecer a seguir: uma fotografia de Quim Barreiros, adolescente, ao lado da diva do Fado, Amália Rodrigues, tirada numa dessas viagens ao estrangeiro com os ranchos.

Um acordeão nas casas de fado

Aos vinte anos, Quim Barreiros teve que trocar Vila Praia de Âncora por Lisboa, onde foi fazer a tropa. E, aquilo que na altura (segunda metade dos anos 60) poderia vir a ser uma fatalidade para muitos dos jovens portugueses que faziam a recruta em Portugal e depois iam combater para a Guerra Colonial, revelou-se um golpe de sorte para Quim Barreiros: não foi servir no Ultramar e ficou por Lisboa, integrando a Banda da Força Aérea... e começando então a contactar com o circuito das Casas de Fado.

“Quando fui para a Força Aérea”, conta Quim Barreiros, “fui como especialista. Eu estava a tirar o curso na Escola de Electromecânica, em Paços de Arcos, e na tropa puseram-me como mecânico de radar. Quando eu entro para a tropa, soube que havia uma coisa chamada Banda da Força Aérea e aí... cheira-me a música. E se cheira a música, o Quim está lá!”. Mas como é que alguém que toca acordeão entra numa banda militar? “Tocando outros instrumentos. Eu já tinha umas luzes anteriores sobre como se tocava saxofone e clarinete, fiz uns testes, fui aprovado e foram esses instrumentos que eu toquei na banda, tendo tocado também depois bateria. Era no AB1 da Força Aérea – que agora faz parte do Aeroporto da Portela – que estava estacionada a Banda”. E Quim Barreiros adaptou-se rapidamente a um novo reportório, feito de marchas militares e de peças de música clássica. A sua permanência na Banda da Força Aérea permitiu-lhe também não ter que ir fazer a guerra na ex-colónias portuguesas: “Quem fazia parte da Banda ficava em Portugal porque era nossa função tocar em ocasiões especiais, como grandes recepções aos chefes de estado que nos visitavam ou feriados e datas importantes”.

Mas, enquanto de dia estava na Força Aérea, à noite Quim Barreiros passou a frequentar e a tocar nas Casas de Fado, à custa de muitos dias sem dormir. Diz ele: “Comecei a tocar no Solar do Minho, no Timpanas, na Adega Machado, no Solar da Hermínia, que era da Hermínia Silva, na Caverna – que tinha sido A Toca, do fadista Carlos ramos, mas que a Fernanda maria e o marido tinham comprado e mudado de nome –, no Lisboa à Noite, que também era deles, e comecei a dar nas vistas”. Numa entrevista dada por ele em 2011 ao jornal i, Quim Barreiros recordou assim a sua entrada nesse circuito: “Fui ao Solar do Minho, em Alfama, num sábado à noite. A casa estava cheia e nós a beber a nossa sangria numa mesinha. Resolvi pedir au dono para me deixar tocar concertina. Saltei para o palco e toquei uma coisa qualquer do folclore. Quando acabei deixei aquela gente toda em pé de guerra. Sabes como é o fado, tudo muito caladinho. Agora imagina o que é um tipo da borga com uma concertina, um contraste dos diabos. Nos final, veio falar comigo e perguntou-me quem eu era. ‘Você trabalha todos os dias? Não quer vir cá todas as noites?’. “Isso é o meu sonho”, disse-lhe eu. E no dia seguinte estava lá. O homem disse-me: “Não lhe podemos pagar muito, cem escudos por noite, ok?”. Eu fiquei calado, pensei que ele estava a gozar. Na Força Aérea, como soldado músico, ganhava 75 escudos por mês”.

Depois deste episódio, Quim Barreiros começou a entrar no circuito profissional das casas de Fado de Alfama, Alcântara e, principalmente, Bairro Alto, tocando acordeão e concertina. Mas o seu reportório, feito de muitos temas tradicionais do Portugal rural, contrastava com a sisudez e seriedade do Fado. Alguns fadistas e instrumentistas aceitaram-no bem, mas outros torciam o nariz a esta intromissão de um instrumento pagão no meio dos instrumentos sagrados do Fado. Quim Barreiros conta que um dos mais críticos era Alfredo Marceneiro, na altura uma autêntica lenda viva do fado de Lisboa:

“Uma vez o Ti Alfredo disse-me: Oh Quim, tu sabes que eu não concordo com isto do folclore nas casas de fado, mas o que se há-de fazer? Eles gostam...”.
Quim Barreiros

E estes eles eram os frequentadores das casas, nacionais e estrangeiros, que viam em Quim Barreiros uma alternativa bem-disposta e bem-vinda ao Fado. E, mesmo no seu seio, Quim Barreiros deixou muitos amigos: “Por exemplo, o Carlos do Carmo, que estava à frente do faia – casa que era da sua mãe, a D. Lucília do Carmo –, ou grandes guitarristas como Jorge Fontes ou o Jaime Santos. Eu nunca fui um acordeonista popular, e tinha a minha característica própria a tocar. E era por isso que eles me apreciavam”.

No princípio era o folclore

Assim que começou a ficar conhecido no restrito circuito musical lisboeta, Quim Barreiros foi convidado para gravar com vários artistas e começou também, em 1971, a ter uma produção invejável de discos próprios – numa primeira fase apenas instrumentais e quase sempre preenchidos por temas tradicionais portugueses – e que nunca mais acabaria. E muitas vezes acompanhado por guitarra portuguesa e viola: “O que fazia sentido na minha música era ser acompanhado por um cavaquinho ou uma viola braguesa, mas como ninguém tocava esse instrumentos em Lisboa, lá iam os guitarristas de Fado, muitas vezes a sarrafar (a tocar nas cordas em rasgado, ao contrário do normal dedilhado do Fado) na guitarra portuguesa, para acompanharem o meu acordeão. E era curioso: não era eu que os desafiava a tocar comigo, eram eles que queriam. O Jorge Fontes deu-me um grande empurrão e acompanhou-me muitas vezes. Repare-se numa coisa: muitos dos fadistas e dos grandes instrumentistas de Fado não são de Lisboa. Mas mantiveram uma ligação à música folclórica dos sítios de onde vieram. A própria Amália gravou oitenta por cento de fados, mas os outros vinte por cento são marchas e temas folclóricos”.

Paralelamente, Quim Barreiros fez gravações integrado nas grandes orquestras ligeiras da altura, como a do Maestro Shegundo Galarza – “com o Shegundo Galarza gravei vários LPs: um só com paso-dobles, outro com tangos e outro com valsas”, refere –, a do Maestro Arlindo de Carvalho e outras, para além de ter trabalhado como músico de sessão em inúmeras gravações de outros artistas. Quim Barreiros cruzou-se com o Trio Odemira – cujos elementos o convidavam muitas vezes para tocar na sua casa típica, em Alcântara – e, recorda ainda, “o Trio Guadiana”, com o qual gravei muitos LPs em conjunto. O trio Guadiana era característico da música do Alentejo e foram os grandes responsáveis pela divulgação da música alentejana numa altura, início dos anos 70, em que essa música ainda não era muito conhecida”. A sua passagem pelas casas de Fado levou-o também a atrever-se a gravar fados em acordeão, facto que Quim Barreiros justifica agora porque “havia a Eugénia Lima (grande acordeonista portuguesa que começou a gravar ainda nos anos 40) que já tinha gravado fados e, como era um génrero musical popular, lá gravei uns fados também”.

Quim Barreiros diz que “o primeiro contrato discográfico que assinei com a Rádio Triunfo era vitalício; quer dizer prendia-me a essa editora para o resto da vida. Meteram-me o contrato à frente, não o li e assinei. Só depois é que me avisaram, eu consegui livrar-me daquilo e comecei a gravar para outras editoras. Gravei muito para o Arnaldo Trindade (responsável pela lendária editora portuguesa Orfeu), gravei para a Sassetti, para a Alvorada, para a Roda, que era uma etiqueta da Valentim de Carvalho; gravei para quase toda a gente. E os contratos eram feitos disco a disco: pagavam-me quinhentos escudos por cada número, se fosse para um single, e três contos por doze números, se fosse para um LP. E como eu tinha muita facilidade em gravar depressa, conseguia fazer um LP numa tarde: papava três continhos em poucas horas de trabalho”.

Logo em 1971, Quim Barreiros grava dois singles e o seu primeiro LP, intitulado apenas Quim Barreiros – Acordeão. Neste álbum, o folclore minhoto está em larga maioria, com muitos temas que celebram a música tradicional da sua região-natal: viras, chulas e rusgas. Mas ainda durante a primeira metade dos anos 70, Quim Barreiros alarga a sua produção à interpretação de temas de muitas outras zonas do país, desde corridinhos e bailes mandados algarvios a chamarritas açorianas, ao malhão de Águeda, à tradição alentejana (nos vários discos, entre singles e LPs, que grava com o Trio Guadiana entre 1973 e 1975), às marchas populares de Lisboa e ao Fado. Uma tendência que se nota nitidamente no seu LP de 1974 Quim Barreiros – Povo Que Canta, uma referência óbvia aos programas da RTP com o mesmo nome em que Michel Giacometti mostrava as suas recolhas de música tradicional de Portugal inteiro. Mas Quim Barreiros também se aventura a gravar outros temas populares e de impacto comercial imediato como o “Parabéns a Você”, “Natal Feliz” ou a “Marcha Nupcial”.

Um cantor popular

Na segunda metade dos anos 70, e ao mesmo tempo que continuava a editar muitos temas de raiz tradicional, Quim Barreiros, foi desenvolvendo o seu gosto e a sua apetência para a escrita de muitos temas próprios em que um certo teor brejeiro, picante, de letras com duplo-sentido já se faziam sentir como parte fundamental da sua escrita de canções. Para além do já citado “Recebi um convite (à casa da Jóquina)”, temas como “Franguito da Maria”, “Tira Fora que Vem Gente”, “Vais Ter Um de Cada Lado”, “A Fechadura da Rita” (num single em que canta à desgarrada com Armando Marinho) ou “Queres É Levar com o Chouriço” mostram já Quim Barreiros a assinar temas em que usa os ensinamentos que ele tinha recolhido junto dos cantadores ao desafio e da riquíssima tradição oral que trouxe até aos nossos dias muitas rimas picantes e trocadilhos que, muitas vezes, tanto podem ser lidos de trás para a frente como de frente para trás, salvo seja.

E é já armado com um enorme acervo de temas folclóricos, canções populares e composições próprias que Quim Barreiros se atira, a partir de 1976, a uma nova aventura: a conquista do circuito de festas dos emigrantes portugueses nos Estados Unidos e Canadá, numa primeira fase, e no Brasil e na Europa, depois. Um ano depois é editado no mercado norte-americano o álbum Dance com o Famoso Super-Trio. Diz Quim Barreiros: “O que era o Super-Trio? Quando fiz as minhas digressões anteriores na América do Norte, eu percebi que as comunidades portuguesas gostavam muito da minha música e da música do Francisco José, etc, mas faltava ali qualquer coisa. E o que faltava? O bailarico. Então o que é que eu fiz? A partir de 1976, mais coisa menos coisa, arranjei um baterista – o Nucha, que ainda agora me acompanha e um cantor – o Raimundo – e parti para os Estados Unidos e o Canadá, onde fizemos espetáculos para os emigrantes em dezenas de sítios diferentes desses países, de norte a sul, de leste ao oeste. Eu fazia um concerto com o meu reportório normal e, depois, arrumavam-se as cadeiras e as pessoas dançavam, já com o Super-Trio, e era para isso que ia outro cantor: enquanto eu tocava acordeão, o Raimundo cantava êxitos portugueses, brasileiros, latino-americanos...”. Outras parcerias que Quim Barreiros desenvolveu na segunda metade dos anos 70 levaram-no a gravar igualmente com artistas como Pereira d’Apúlia, Dulce de S. Marta, Armando Marinho ou Manel de Samonde.

O início dos anos 80 vai encontrar Quim Barreiros a frequentar ainda esse enorme, embora difícil, circuito da emigração enquanto dá concertos e anima bailaricos pelas feiras e romarias de Portugal. Porque, diz, “era muito mais lucrativo fazer as festas dos emigrantes. Eu alugava um furgão e lá ia com o Trio e os instrumentos de cidade em cidade. Quando estávamos nos Estados Unidos aproveitávamos e também íamos às Caraíbas, às Antilhas Holandesas, a todo o sítio onde houvesse emigrantes portugueses. E na Europa era a mesma coisa: batíamos França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Holanda...”. Em 1981 é editado o álbum Dance com Quim Barreiros e o seu Super-Trio, onde havia versões de temas populares – e muitos deles com um inusitado ritmo disco-sound – como “Canção do Beijinho”, “Amanhã de Manhã” ou “Eu Tenho Dois Amores”.

Mas é também no início dessa década que Quim Barreiros vê a sua música – que até aí era essencialmente e intrinsecamente de inspiração portuguesa – abrigar um outro género, este de origem brasileira: o forró. É ele que nos conta a história: “O facto de usar muitos temas brasileiros, de compositores de forró, deve-se a eu muitas vezes estar em digressão e, quando estou em digressão, não tenho tempo para compor: Uma vez estava no Rio de Janeiro com a minha mulher, no Barril 1800 – um restaurante de um casal nosso amigo, português, na Praia de Ipanema – e o Luís Gonzaga, que é considerado o maior acordeonista brasileiro de sempre, ouviu-me tocar e disse-me: “Você tem que ir ao Nordeste brasileiro, que os sanfoneiros de lá têm uma música que é muito parecida com essa que você toca”. E é verdade: eu fui até lá, fiz amizade com gente do forró e de outros géneros nordestinos, e aquela música tem tudo a ver com a nossa música portuguesa”. A partir daí, muitos dos mais afamados compositores de forró começaram a enviar as suas composições para Quim Barreiros, que as adaptasse – “dou-lhes um ritmo mais português”, diz – e as tornasse suas. O primeiro (e enorme) êxito de Quim Barreiros importado do Brasil foi “Bacalhau à Portuguesa”, editado em 1986, no mesmo álbum em que também apareciam outros clássicos como “Curso de Dactilografia”, “Comprar sem Poder” ou “Picada de Enfermeiro”. Entre os compositores e sanfoneiros brasileiros mais usados por Quim Barreiros contam-se Zenilton (autor de “Bacalhau a Portuguesa” e “O Grilinho”, entre outros), Amazan (autor de “A Cabritinha”) ou Edmar Neves / Jairo Góis (“A Garagem da Vizinha”).

A alegria da estudantada

Estes e muitos outros temas cantados por Quim Barreiros – da sua autoria ou não – nas últimas décadas, fizeram dele um dos artistas mais amados do nosso país. Entre dezenas de outros exemplos podem citar-se “Mestre de Culinária”, “Os Bichos da Fazenda”, “A Coisa”, “Dar ao Apito”, “Ela Estava Contusa”, “Nunca Gastes Tudo”, “Quem Pode, Pode”, “Deixa Botar Só a Cabeça”, “Riacho da Pedreira”, “O Ténis”, “Os Pêlos do Coelhinho”, “O Peixe”, “O Poder”, “O Brioche da Sofia” ou o recente e polémico “Casamento Gay”. E, se bem que muitas vezes desprezado pela crítica musical instituída e malvisto por algumas elites culturais, Quim Barreiros é – desde meados dos anos 80 – o artista favorito de muitas associações académicas que, ano após ano, o solicitam para abrilhantar as suas Queima das Fitas e Semanas académicas. Com uma carreira de sucessos imparáveis, que fazem dele ainda hoje uma presença híper-requisitada em inúmeros locais do país e do estrangeiro, Quim Barreiros é capaz de ser também o cantor nacional que mais clones deixou na música portuguesa. E basta ver a quantidade de acordeonistas/cantores que o tentaram imitar – no estilo, na fórmula, nas letras ou até no guarda-roupa – para se aquilatar a sua importância na nossa cultura popular.

Numa entrevista publicada pelo jornal Expresso (em 2004), o musicólogo José Alberto Sardinha – responsável pela recolha e pela catalogação de inúmeras expressões musicais tradicionais portuguesas e autor do polémico livro A Origem do Fado – aponta Quim Barreiros como o legítimo continuador das nossas mais profundas e ancestrais tradições musicais: “Há um fenómeno que merecia um grande estudo que é o caso do Quim Barreiros: um cantor tradicional que herdou toda a tradição da música minhota e que cria de acordo com os parâmetros que lhe foram fornecidos pela tradição. Só que ainda ninguém reparou nisso. Os intelectuais acham aquilo uma «pimbalhada» (aliás, o divórcio entre os intelectuais e o povo permanece - se calhar, se vivessem há cem anos achariam a música popular da época «pimba», embora, agora, como é «antiga», já gostem...), mas ele tem criações onde, por exemplo, se identifica perfeitamente a estrutura musical do malhão do Norte que ele recriou. Com letras, em parte, fornecidas pela tradição. Aquela do «bacalhau», se for ao Leite de Vasconcelos, está lá, é uma quadra popular do fim do século XIX! Era preciso estudar musicalmente tudo isso. Eu tenho discos do Quim Barreiros, comecei a coleccioná-los. E, um dia, se tiver tempo, hei-de escrever sobre isso.”